Roda do Conhecimento

ESPAÇO DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS, DE DIVULGAÇÃO DE OFICINAS, SEMINÁRIOS, WORKSHOPS E CURSOS DE EXTENSÃO.

Wednesday, February 24, 2010

Gpec - Educação à distância

“ Pouco a pouco.....transformando a educação”

www.gpeconline.com.br

Associada a ABED

(Associação Brasileira de Educação à Distância)

Formação Continuada

Construção da Linguagem e Arteterapia – 80hs

Autora e Professora: Sonia Branco

*Plano Especial para Rede Pública ou Turmas Fechadas* Consulte-nos!

Descrição

O curso oferece conteúdos teóricos sobre os pensamentos de Wallon, Rudolf Steiner e Piaget à respeito do desenvolvimento de crianças de 0 à 6 anos de idade, em seu aspecto lingüístico e de apreensão do conhecimento. Também permeia pela utilização das artes como mediador desta aprendizagem, com técnicas de arteterapia e fornece informações sobre as dificuldades e distúrbios de aprendiazado, como vencê-los e como identificá-los.

Objetivos

Oferecer aos participantes o conhecimento do desenvolvimento da comunicação em crianças em idade de 0 à 6 anos, suas dificuldades e como preveni-las através de intervenções de técnicas de arteterapia.
Ao final do curso o aluno deverá ser capaz de reconhecer as etapas do desenvolvimento da linguagem em crianças de 0 à 6 anos, bem como as possibilidades de dificuldades de aprendizagem ou distúrbios de linguagem para encaminhamento aos profissionais competentes e proporcionar o conhecimento de técnicas de arteterapia educacional para prevenção dos distúrbios de linguagem durante sua aquisição.

Público

Pedagogos, psicopedagogos, professores, educadores, coordenadores pedagógicos,diretores de escolas, estudantes de pedagogia e licenciaturas, estagiários na área de educação, fonoaudiólogos, estudantes de fonoaudiologia, terapeutas ocupacionais, arteterapeutas, arte-educadores, psicólogos, estudantes de psicologia e demais profissionais interessados em aprimorar seus conhecimentos sobre o assunto.

Conteúdo Programático


Módulo I

Teoria de Piaget

Relembra a Teoria de Piaget sobre o desenvolvimento motor e cognitivo para que possamos traçar um paralelo e compreender de maneira mais científica, as teorias dos pensadores Piaget e Steiner. Epistemologia de Jean Piaget, considerações sobre o Período Pré-Operatório, características do Pensamento Pré-Operacional, O Desenvolvimento na Teoria Piagetiana, Equilibração das Estruturas Cognitivas,Teoria do desenvolvimento mental e problemas da educação e O lúdico na educação infantil.


Módulo II

Apresenta a teoria de Rudolf Steiner. A Pedagogia Waldorf e a utilização do fazer artístico no ensino infantil, fundamental e médio. Fontes epistemológicas, Fontes sócio-antropológicas, Fontes históricas mundiais, Histórico da Pedagogia Waldorf no Brasil e Introdução à Pedagogia Waldorf.


Módulo III

Apresenta a Teoria de Henri Wallon.

Módulo IV

Desenvolvimento da linguagem na humanidade e desenvolvimento do processo comunicativo na criança.

Módulo V

Serão apresentadas as etapas do desenvolvimento da linguagem em pessoas portadoras de deficiência sensorial (visuais e auditivas) e os portadores de deficiência mental para o aprendizado.

Módulo VI

Consciência fonológica e semântica, definições. Exercícios para o estímulo das rotas semânticas - fonológicas. O aprendizado através da consciência fonológica e lexical , consciência de palavras, consciência da sílaba, consciência fonêmica.

Módulo VII

O aprendizado da comunicação através das consciências fonológicas e semânticas.


Módulo VIII

Introdução da Arteterapia

Intervenções de técnicas de arteterapia


Com a prática individual será composto um Programa fonoaudiológico preventivo em linguagem oral e escrita e um Programa de Arteterapia Educacional.

O inscrito receberá uma apostila contendo todos os módulos e materiais no final do curso.


Coordenação e Tutoria

Autora e Professora Sonia Branco Possui graduação em Fonoaudiologia pela Universidade Estácio de Sá, Pós-Graduação em Arteterapia em Educação e Saúde pela Universidade Cândido Mendes e formação em Arteterapia por Ms. Maria Cristina Urrutigaray. Tem experiência na área de Fonoaudiologia, com ênfase em Fonoaudiologia Escolar, atuando principalmente nos seguintes temas: arteterapia, desenvolvimento pessoal, fonoaudiologia, desenvolvimento da linguagem, educação especial, construção de linguagem e contos de fada. É pesquisadpra nas áreas de mitologia grega e contos de fada. Eventualmente ministra aulas e palestras nas Universidades Santa Úrsula e Instituto a Vez do Mestre à convite do professor titular. É coordenadora do Projeto Roda do Conhecimento e Co-autora do livro CONTOS DE FADA - vivências e técnicas em Arteterapia e autora do livro CONTOS DE FADA - A INTERFERÊNCIA DO OLIMPO (no prelo).

Professora Me. Patricia Limaverde Nascimento

Mestre em Educação:Currículo pela PUC-SP, Bióloga (CRBio1 61128/01-D), possui 14 anos de experiência em coordenação e direção pedagógica. Foi orientanda de Maria Cândida Moraes e desenvolve projetos de assessoria pedagógica em escolas particulares e públicas. Trabalha na formação de professores da rede privada e pública sempre voltada para as inovações em didática e abordagens curriculares. Já apresentou seus trabalhos de educação transdisciplinar em diferentes estados no Brasil e também na Espanha, em Barcelona. Autora de 3 coleções de livros didáticos de educação infantil e co-autora de 4 coleções de livros didáticos de ensino fundamental. Já ministrou cursos sobre Transdisciplinaridade, Trabalho com Projetos em sala de aula, além de cursos nas áreas de matemática e semiótica aplicada no currículo de educação infantil e de ensino fundamental. Recebeu, em maio de 2006, o prêmio de Melhor Experiência em Educação Humanitária no Congresso Latino-Americano de Educação Humanitária realizado no Memorial da América Latina em São Paulo. Atualmente também é docente da UCB em Brasília-Df.

Suporte de Relacionamento - Gisela Zampelli

Suporte técnico 1Avate

Suporte técnico 2Janaina Corrêa

Carga Horária e Horário do curso

A carga horária estimada para esse curso é de 80 horas/aula, divididas entre estudos e interação online e pesquisas offline. O horário de estudos é estabelecido pelo próprio participante, de acordo com sua disponibilidade.

Requisitos Necessários

Computador com acesso a internet. É necessário ao inscrito saber navegar pela internet, fazer download de arquivos e enviar e-mail. Temos também um fóruns de discussão dentro do curso onde estas ferramentas serão muito utilizadas.Todos os inscritos receberão o Manual do Aluno por e-mail, de fácil entendimento para navegar na área do curso e utilizar todas as ferramentas disponíveis. Além disso, disponibilizamos um suporte técnico por e-mail e/ou skype para auxiliar os inscritos na navegação.

Avaliação e Certificação

O curso possui uma série de atividades avaliativas propostas como:

1. Realização de atividades interativas de acompanhamento;

2. Reflexão das leituras complementares e vídeos indicados;

3. Atividades de auto-avaliação da unidade didática;

4. Participação nas listas e no fórum de discussão (A avaliação dessa participação será feita em função do conteúdo e da relevância das mensagens).

O resultado das avaliações será expresso em porcentagem, em escala de 0 a 100%. Os alunos que conquistarem 75% das metas do curso, obterão a certificação. Todas as atividades serão realizadas on-line.

Após conquistar 75% das metas do curso, o participante receberá por e-mail seu certificado digital, registrado internamente pela GPEC e enviado por e-mail. O participante poderá imprimir seu certificado na sua própria impressora. Neste certificado constará: nome do curso, nome do participante, carga horária, assinatura digitalizada do(a) professor(a) do curso, dados da empresa GPEC (CNPJ, endereço), e o código de registro do certificado.

Caso o participante queira solicitar um certificado impresso, este será emitido via correio, mediante pagamento de uma taxa de impressão e postagem. Este certificado será impresso em papel especial, terá todos os itens do certificado digital acima citados e mais outros itens como: conteúdo programático, carimbo da empresa e selo de autenticidade.


Formas de Inscrição e Pagamento


Para se inscrever, acesse nosso site: www.gpeconline.com.br e localize o curso em nossa página.

Equipe GPEC

“ Pouco a pouco.....transformando a educação”

GPEC - GRUPO DE PRODUÇÃO EM EDUCAÇÃO & CULTURA LTDA

Tel/Fax. 11 - 3782-0635 e 8603-7107

São Paulo - SP

www.gpeconline.com.br



Sunday, September 06, 2009

EROS E PSIQUÊ - Fernando Pessoa

    Conta a lenda que dormia
    Uma Princesa encantada
    A quem só despertaria
    Um Infante, que viria
    De além do muro da estrada.

    Ele tinha que, tentado,
    Vencer o mal e o bem,
    Antes que, já libertado,
    Deixasse o caminho errado
    Por o que à Princesa vem.

    A Princesa Adormecida,
    Se espera, dormindo espera,
    Sonha em morte a sua vida,
    E orna-lhe a fronte esquecida,
    Verde, uma grinalda de hera.

    Longe o Infante, esforçado,
    Sem saber que intuito tem,
    Rompe o caminho fadado,
    Ele dela é ignorado,
    Ela para ele é ninguém.

    Mas cada um cumpre o Destino
    Ela dormindo encantada,
    Ele buscando-a sem tino
    Pelo processo divino
    Que faz existir a estrada.

    E, se bem que seja obscuro
    Tudo pela estrada fora,
    E falso, ele vem seguro,
    E vencendo estrada e muro,
    Chega onde em sono ela mora,

    E, inda tonto do que houvera,
    À cabeça, em maresia,
    Ergue a mão, e encontra hera,
    E vê que ele mesmo era
    A Princesa que dormia.

    Fernando Pessoa

Sunday, July 12, 2009



Em Breve:
Para Segunda quinzena de Agosto/Primeira Quinzena de Setembro
Aguarde







Monday, December 15, 2008


Como é mesmo o nome?

Marina Colasanti


Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.

Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.

No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.

Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.

— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.

Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração.

A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.

A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.

O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.

Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.

Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.

Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.

Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.

No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.

As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.

Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.

— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?

Sunday, November 16, 2008


SOPA DE PEDRA

Um dia, Pedro Malasartes vinha pela estrada com fome e chegou a uma casa onde morava uma velha muito pão-dura. Bateu a porta e foi logo falando:

- Sou um pobre viajante faminto e cansado. Venho andando de muito longe, há três anos, três meses, três semanas, três dias, três noites, três horas...

- Pare logo com isso e diga rápido o que você quer – interrompeu a mulher.
- É que estou com muita fome, será que a senhora pode me ajudar?

A velha foi logo, logo dizendo:

- Não tem nada de comer nesta casa, vá embora...

Malasartes muito esperto que sói ele, olhou em volta, viu um curral cheio de vacas, um galinheiro cheio de galinhas, umas gaiolas cheias de coelhos, um chiqueiro cheio de porcos. E ainda mais uma horta muito bem cuidada, um pomar com árvores carregadinhas de frutas, um milharal viçoso e uma roça de mandioca.
- Não, desculpe a senhora entendeu mal. Eu não preciso de comida, não. Só queria era uma panela emprestada e um pouco d’água. Se a senhora me deixar usar seu fogão, eu já estou satisfeito. Porque aqui no chão tem muita pedra, e isso me basta. Eu faço uma sopa de pedra maravilhosa e nunca preciso de mais nada, já fico de barriga bem cheia.

Desse jeito, ela não tinha como negar a panela, um pouco de água e o seu fogão. Então deixou. Meio de má vontade, mas deixou. Só que não entendeu e repetiu:

- Sopa de pedra? Como assim?

- É minha senhora... – disse ele, se abaixando para pegar uma pedra no chão. – Com um pouco de pedra eu faço a sopa mais deliciosa do mundo. O importante é lavar bem, esfregar bem esfregadinho e deixar a pedra bem limpa antes de botar na panela.

E Malasartes então tratou de lavar bem a pedra, como disse.

Em seguida, encheu a panela com água, pôs a pedra dentro e botou tudo no fogo. Quando a água começou a ferver, ele provou e disse:

- É... até que não está ruim... Só não deve ficar boa mesmo, de verdade, porque não tem sal...

- Não seja por isso – disse a velha. – Eu tenho e lhe dou um pouquinho.

- Oh muito obrigada... , Só não deve ficar boa mesmo, de verdade, porque não tem cebola e alho...

-Não seja por isso – disse ela. – Eu lhe arrumo.

-E um temperinho verde, de horta, será que não tem? Dá gostinho super especial na sopa...

- Vá lá, não é por isso que essa sua sopa vai ficar sem gosto.

A velha então, foi pegar tudo o que Pedro Malasartes pediu e voltou depressa para o lado dele. Estava louca para aprender a fazer aquela sopa. Podia ser mesmo uma sorte receber aquele viajante em casa. Se ele lhe ensinasse a se alimentar só com uma sopa feita de pedra e água, com certeza ela ia economizar muito daí por diante.

Mas não pôde ficar muito tempo na beira do fogão, observando. Porque logo que Pedro jogou os ingredientes na panela e deu uma mexida, ele tornou a provar e fez uma cara de quem estava em dúvida.

- O que foi? – perguntou a velha...

- Não sei bem. Parece que falta alguma coisa neste caldo. Talvez um pedacinho de carne ou de lingüiça...

- Não seja por isso – respondeu ela. – Se é uma sopa tão maravilhosa e tão econômica assim, não vai ser por um pedacinho de carne que vamos perder essa maravilha.
Foi lá dentro e voltou com um pedaço de carne, outro de paio e uma lingüiça. Malasartes jogou tudo dentro da panela. Deixou cozinhar mais um pouquinho e então respirou fundo:

- Está começando a ficar cheirosa, a senhora não acha?

- É mesmo – concordou a velha, interessada.

- O problema é que vai ficar meio sem graça assim branquela, sem cor. O gosto está bom, mas fica sempre melhor quando a gente tem um pouco de colorido para enfeitar. Um pedaço de abóbora, umas folhas de couve, de repolho, uma cenourinha, uma batatinha... mas isso não é mesmo muito importante, a senhora não acha? É só aparência...

A velha, louca para aprender bem a fazer aquela sopa preciosa, foi dizendo:

- Não seja por isso. Vou ali na horta buscar.

Voltou carregada de tudo o que ele pediu e mais um nabo, dois maxixes, uma batata-doce, um chuchu, uma espiga de milho. Até uma banana-da-terra a velha trouxe... A essa altura, ela já não se limitava ficar olhando. Tratava de ajudar mesmo, para andar depressa e também para ela ter certeza de que não estava perdendo nenhuma etapa da preparação daquele prato tão maravilhoso e econômico. Por isso, foi logo lavando todas as verduras para tirar a terra e limpar bem, descascou o que era de descascar, e foi passando para Pedro, que cortava e jogava na panela, cortava e jogava na panela, cortava e jogava na panela...

E o fogo, ó, ia esquentando, esquentando, esquentando...

E a água, ó, ia fervendo, fervendo, fervendo...

E a sopa, ó, ia borbulhando, borbulhando, borbulhando...

Os dois, Pedro Malasartes e a velha esperavam sentindo aquele cheiro ótimo.

De vez em quando Malasartes provava a sopa e suspirava:

- Hum! Está ficando gostosa...

Provava a sopa e suspirava:

- Hum! Está ficando gostosa...

Provava a sopa e suspirava:

- Hum! Está ficando gostosa...

- Está mesmo um cheiro delicioso – concordava a velha.

Depois de muito tempo..., ele provou de novo e concluiu:

- Pronto! Agora está perfeita! Uma delícia! É só tomar.

A velha trouxe dois pratos fundos, e ele serviu. Ela ficou olhando, para ver o que ele fazia com a pedra, mas Pedro deixou todas as pedras no fundo da panela.

-Ué e as pedras? – perguntou a velha.

- A gente joga fora.

- Não entendi, porque...joga fora?

- É...

...Ou então lava bem e guarda para fazer outra sopa no dia em que for preciso enganar outra boba.

Uns dizem que ela ficou tão furiosa que jogou a panela em cima dele, com sopa quente, pedra e tudo.

Outros dizem que ela deu uma gargalhada, viu que tinha merecido, mas tratou de tomar a sopa e guardar a pedra.

Pode escolher o fim. E fica sendo assim.

(Conto Brasileiro por Ana Maria Machado)

Saturday, November 08, 2008

Epa, cadê meu par?

A LENDA DOS
SAPATOS VERMELHOS



Era uma vez...ra uma vez....


.... uma menina pobre e sozinha, tão pobre que nem sapatos tinha. Ela morava em uma cabana, na floresta, e seu grande sonho era ter um par de sapatos vermelhos. Por isso, foi guardando todos os trapos vermelhos que encontrava, até que conseguiu fazer um par de sapatos vermelhos de pano.

Ela adorava seus sapatos, usá-los fazia com que se sentisse feliz, mesmo tendo que passar os dias procurando frutas e nozes para comer, no bosque solitário onde vivia.

Um dia...m dia....



.... ela estava andando por uma estrada, quando passou uma velha muito rica, em uma carruagem dourada. A velha parou ao lado da menina, e disse "vou leva-la para minha casa, e cria-la como minha filha". Pobre e sem esperanças, a menina aceitou o convite e foi morar na casa da velha senhora.

Ao chegar, os criados lhe deram banho, pentearam, cortaram o cabelo e vestiram com roupas novas e muito bonitas. Animada com as coisas novas, a menina nem se lembrou dos trapos que usava, nem do seus adorados sapatinhos vermelhos. Quando, passados alguns meses, perguntou sobre eles aos criados, foi informada que a senhora havia jogado tudo no fogo, dizendo que as roupas eram imundas e os sapatos eram ridículos.

A menina ficou muito triste, porque adorava os seus sapatinhos vermelhos. Além disso, a vida nova tinha perdido todo o encanto. Ela era obrigada a ficar sentada, quietinha, o dia todo. Não podia comer com as mãos. Não podia correr ou pular, ou rolar na grama. E, quanto mais o tempo passava, mais falta ela sentia de seus lindos sapatinhos vermelhos. Mais importantes eles se tornavam.

O tempo passou... tempo passou...



...e chegou o dia de ser crismada - porque a velha senhora era muito religiosa e fazia questão de que a menina recebesse esse sacramento. Essa era uma grande ocasião para ela, que queria que a menina se apresentasse impecável na igreja. Costureiras foram chamadas para fazer o vestido. E a senhora levou a menina a um velho sapateiro aleijado, que era considerado muito bom, para fazer um par de sapatos novos para a ocasião especial.
Na vitrine do sapateiro havia um lindo par de sapatos vermelhos, do melhor couro. A menina escolheu os sapatos vermelhos, e a velha senhora, coitada, que enxergava tão mal que nem podia distinguir as cores, deixou que ela os levasse. O velho sapateiro, conivente, piscou para a menina e embrulhou os sapatos.

A entrada da menina na igreja, no dia seguinte, foi um escândalo. Todos olhavam para os sapatos vermelhos da menina. Como alguém podia se apresentar para a crisma com uns sapatos tão indecentes? A menina, entretanto, achava seus sapatos mais lindos do que qualquer coisa.

Quando chegou em casa, a tempestade estava armada. A velha senhora, que havia ouvido todos os comentários maldosos, proibiu a menina de usar novamente os tais sapatos."Nunca volte a usar os sapatos vermelhos"!, ordenou, furiosa.

A menina, entretanto, estava fascinada pelos sapatos. No domingo seguinte, quando foi a missa de novo, colocou os sapatos - e, novamente, a velha senhora não percebeu de que se tratava, pois enxergava muito mal.

Na entrada do templo, havia um velho soldado ruivo, com o braço enfaixado. Ele se reclinou em frente à menina, dizendo "posso tirar o pó de seus lindos sapatos"? A menina, toda orgulhosa, deixou que ele o fizesse. Enquanto limpava os sapatos, ele disse para a menina "não se esqueça de ficar para o baile", e cantou uma musiquinha alegre.

Novamente, se repetiu a desaprovação de todos dentro da Igreja. A menina, fascinada com seus sapatos, nem ligava. Não escutava a missa, não via ninguém. Só olhava para seus lindos sapatos vermelhos.

Na saída, o velho soldado disse para a menina "que belas sapatilhas para dançar". E a menina, mesmo sem querer, começou a rodopiar ali mesmo.



Sem parar...em parar...


...ela continuou dançando, dando voltas, fazendo piruetas. Todos corriam atrás, assustados. O cocheiro da velha senhora tentou alcançá-la, mas foi em vão. Finalmente, um grupo de pessoas conseguiu segurá-la, e o cocheiro arrancou os sapatos vermelhos, com grande dificuldade, dos pés da menina.

Ao chegar em casa, a velha senhora guardou os sapatos no fundo do armário, e disse para a menina "agora me ouça, nunca mais use esses malditos sapatos vermelhos". A menina, entretanto, não conseguia parar de pensar nos sapatos. Muitas vezes abria o armário, e ficava espiando os seus lindos sapatinhos vermelhos.

Algum tempo depois a velha senhora adoeceu. A menina, que já tinha que se comportar e ficar quieta, agora tinha que andar na ponta dos pés pela casa, para não perturbar. Estava enjoada, entediada. E não resistiu.


Abriu o armário...briu o armário...



... e pôs nos pés os sapatos vermelhos. Imediatamente, começou a dançar, rodopiar, bailar. Era como se os sapatos a guiassem. Eles a levavam, dançando, para onde queriam. E assim ela saiu de casa, dançando, e atravessou a propriedade, dançando, e chegou na floresta, dançando.

Na entrada da floresta, estava o velho soldado que havia encontrado na porta da igreja no dia da crisma.Ele estava encostado em uma árvore, e a saudou, repetindo "puxa, que lindos sapatos para dançar"! E lá se foi a menina, dançando, atravessando campos e cidades. Exausta, tentava, vez por outra, arrancá-los. Mas não conseguia.

Dançando, dançando, dançando, foi-se a menina pelo mundo. Tentou entrar em uma igreja para se benzer, mas o sacristão disse-lhe que não poderia, pois seus sapatos eram malditos. Tentou se aproximar de alguém, mas a maioria não queria ajudá-la, com medo de sua maldição. E os poucos que o faziam não conseguiam arrancar os sapatos malditos dos seus pés.

Por fim, exausta, a menina procurou o carrasco de uma aldeia, e lhe implorou que cortasse os sapatos. O carrasco tentou, mas não conseguiu. Desesperada, a menina disse "então corte-me os pés, não posso viver dançando".

O carrasco, penalizado e implorando perdão a ela e a Deus, cortou seus pés, com lágrimas nos olhos. E os seus pés, com sapatinhos vermelhos e tudo, continuaram dançando, dançando, dançando, pelo mundo afora.


Agora era uma pobre aleijada...gora, a menina era uma pobre aleijada...



... e teve que aprender a viver dessa maneira.
Sem sapatos vermelhos, e trabalhando como criada.

Monday, November 03, 2008


Pele de Asno

Era uma vez um rei tão bom tão amado pelo povo e tão respeitado pelos seus vizinhos que se tornou o mais feliz de todos os monarcas. Teve ainda a felicidade de casar-se com uma princesa tão bela quanto virtuosa, a qual lhe deu uma filha só, mas tão encantadora que os pais viviam num perfeito enlevo.

No palácio reinava a abundância e o bom gosto. Os ministros eram dos mais prudentes e hábeis; os cortesãos, delicadíssimos; os criados, dos mais fiéis. As enormes cavalariças abrigavam os mais belos cavalos do mundo e mostravam os melhores arreios, embora toda a gente estranhasse que o animal de maior importância ali, fosse um asno de compridíssimas orelhas. Não era, entretanto, por simples capricho que o rei lhe dera um posto de tal distinção. Esse asno bem merecia tais honras, porque era na realidade um asno maravilhoso; basta dizer que diariamente, sua baia amanhecia recoberta de moedas de ouro, que o rei mandava recolher.

Mas como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, aconteceu que certo dia a rainha caiu de cama com uma doença misteriosa que nenhum médico atinava curar. A tristeza no palácio foi imensa. O rei, desesperado, fez promessas em todos os templos do reino, nos quais ofereceu sua própria vida em troca da cura da amada esposa. Mas tudo em vão. Afinal, sentindo aproximar-se a sua derradeira hora, a rainha chamou o esposo e disse-lhe entre lágrimas:
- Meu amigo, permiti-me que faça antes de morrer uma recomendação: e é que se de novo casardes...

Aqui o rei a interrompeu, apertando-lhe as mãos e banhando-as em lágrimas, como a dizer que nunca semelhante idéia lhe poderia passar pela cabeça. “Não, não, minha cara esposa; antes recomendai-me que vos siga no túmulo!”

- O reino, continuou a rainha com serena firmeza, pede sucessores para o trono e eu não vos dei senão uma filha; tereis, portanto, de casar-vos de novo – e eu vos peço que só vos caseis se encontrardes uma princesa mais bela e mais bem dotada do que eu. Se me jurardes isto, morrerei contente.

A dor do esposo foi imensa; por muitos dias outra coisa não fez senão chorar e lamentar-se. Por fim foi-se acalmando, porque as grandes dores não duram muito, e um dia recebeu uma representação dos seus ministros pedindo-lhe que se casasse de novo. Isto o fez derramar novas lágrimas de dor reavivada e a resposta foi que jurara casar-se de novo unicamente no caso de aparecer uma princesa mais bela e mais bem dotada do que a falecida, o que era impossível. Os ministros alegaram que isso de beleza era tolice, e que para bem do reino só se fazia necessário uma rainha virtuosa e bastante fecunda, que lhe desse numerosos filhos e assim sossegasse o povo quanto à sucessão da coroa. Alegaram também que a princesa real possuía todas as qualidades para tornar-se uma grande rainha, mas que, como fosse mulher, logo casaria com um príncipe de fora e seria levada outras terras. Os descendentes dessa linhagem, vendo que ali no reino não havia herdeiro para o trono, poderiam provocar guerras de sucessão grandemente desastrosas para todos.

O rei tudo ouviu; ponderou aquelas sábias considerações e prometeu que tomaria nova esposa. E realmente procurou entre as princesas em ponto de casamento uma que lhe conviesse. Todos os dias os ministros traziam-lhe retratos de princesas dos reinos vizinhos – mas o rei sacudia a cabeça. Nenhuma se aproximava da querida defunta. O tempo corria e à medida que o tempo corria a jovem princesa tornava-se mais e mais bela, começando já a exceder a própria mãe. O rei pôs tento naquilo e como já andasse com o juízo meio abalado, entrou a sentir pela filha um amor violento, que nada tinha de amor paterno. Por fim, não podendo mais ocultar seus sentimentos, declarou que só com ela se casaria com sua filha.

A jovem princesa, que era virtuosíssima, quase desmaiou quando ouviu semelhante declaração. Lançou-se aos pés do pai e o conjurou com toda a eloqüência a não cometer esse horrível crime.

O rei foi consultar um drúida para pôr-se em paz com a consciência, e esse druida, que era um grande ambicioso e só desejava tornar-se um dos favoritos de Sua Majestade, convenceu-o de que não havia mal nenhum naquele casamento e que além de vantajoso para todos ainda constituía até uma obra prima . O rei abraçou-o e voltou para o palácio mais decidido do que nunca e a princesa recebeu ordem de preparar-se para o casamento.

A moça, desesperada, só teve uma idéia – correr a consultar a Fada Lilás , sua madrinha. Para isso partiu naquela mesma noite, num carrinho puxado por um carneiro que conhecia todas as estradas. A fada queria muito à princesa e logo que a viu chegar foi dizendo que já sabia de tudo.

- Sim, minha filha, seria um grande erro desposar teu pai. Mas há um jeito de conciliar as coisas sem contrariá-lo de frente. Basta que concordes no casamento, mas que exijas como condição um vestido cor do tempo. Nem com todas as suas riquezas e todo o seu poder conseguirá ele tal vestido.

A princesa agradeceu à sua madrinha e voltou ao palácio, onde declarou ao rei que sim, que se casaria com ele, mas com a condição de ser presenteada com um vestido cor do tempo . O rei ficou encantado com a resposta e reunindo imediatamente os mais hábeis alfaiates do reino, ordenou-lhes que apresentassem aquele vestido; em caso contrário iriam todos para a forca.

Não foi preciso tanto. Dois dias depois os alfaiates voltavam com o vestido encomendado – uma beleza de vestido, leve como as manhãs e azul como o céu . A princesa desapontou e correu de novo em procura de sua madrinha. Que fazer? “Peça agora um vestido cor da lua ”, aconselhou a fada – e a moça pediu ao rei um vestido cor da lua, o qual foi encomendado incontinenti.

No dia seguinte o novo vestido estava pronto e igualzinho à cor da lua. A princesa se desesperou e estava a lamentar-se quando a fada lhe apareceu e disse: “Ou muito me engano, ou se pedires um vestido cor do sol o rei ficará atrapalhado, porque é impossível conseguir-se um vestido cor do sol – e, quando nada, ganharás tempo.”

A princesa assim fez – pediu ao rei um vestido cor do sol, o qual foi sem demora encomendado. E para que os alfaiates pudessem fornecê-lo, o rei lhes deu todos os diamantes e rubis de sua própria coroa para eu fossem empregados como enfeites. Quando os alfaiates trouxeram esse vestido, todos do palácio tiveram que fechar os olhos – tal era o esplendor do vestido. Nunca aparecera na corte maravilha mais bem trabalhada.

A princesa sentiu-se confusa e, pretextando que o vestido lhe tinha feito mal aos olhos, retirou-se para o quarto, onde a esperava a boa fada madrinha.

- Minha filha, coragem! Disse ela. O rei teima em seus projetos e os nossos estratagemas estão falhando. Creio, entretanto, que se lhe pedires a pele do asno que produz todo o ouro que sustenta a grandeza desta corte, ele vacilará. Vai. Vai pedir-lhe a pele do asno.

A moça, muito contente e esperançosa, correu a pedir ao pai a pele do asno. O rei admirou-se daquele capricho, mas sem demora deu ordem para o sacrifício do asno, cuja pele foi apresentada à princesa.
A moça correu para o quarto a descabelar-se, no maior dos desesperos, mas sua madrinha não teve dificuldade em acalmá-la.

- Que tens, minha filha? Fica sabendo que foi ótimo isso. Envolve-te nessa pele e sai pelo mundo. Quem tudo sacrifica pela virtude é sempre recompensado pelos deuses. Vai. Eu farei que o que te pertence te acompanhe. E aqui está esta minha vara de condão. Sempre que bateres com ela no chão, verás aparecer as coisas que te fazem serventia.

A princesa abraçou a madrinha, pedindo-lhe que não a abandonasse nunca. Depois envolveu-se na pele de asno , sujou a cara com a fuligem da chaminé e saiu do palácio sem ser percebida.

O desaparecimento da princesa causou grande sensação. O rei, que já havia ordenado uma festa magnífica para o dia do casamento, caiu no maior desespero. Mandou que saíssem m procura da filha mais de mil mosqueteiros. Mas tudo foi inútil. A varinha de condão tinha a propriedade de tornar a princesa invisível a todos os seus perseguidores.

Logo que deixou o palácio a princesa foi andando, andando, andando até muito longe, em procura duma casa onde empregar-se. Todos lhe davam esmolas, mas ninguém a queria receber. Aquela cara suja e aquele vestuário de pele de asno repugnavam a toda a gente. Por fim chegou aos arredores duma cidade onde havia uma chácara. Justamente andavam ali à procura de uma criada que fizesse os serviços mais grosseiros, como lavar o cocho dos porcos, guardar os gansos e outras coisas assim. Vendo aquela vagabunda tão sujinha a dona da chácara propôs-se a empregá-la – o que a princesa aceitou, pois estava cansadíssima.

A mísera donzela teve que ficar a um canto da cozinha, sofrendo que toda a criadagem caçoasse de sua pessoa do modo mais estúpido – e tudo por causa da tal pele que lhe servia de vestuário. Por fim, acostumou-se, e com tanto capricho deu conta de sua obrigação que a dona da chácara começou a vê-la com melhores olhos.

Um dia em que se sentara ao pé dum tanque teve a idéia de mirar-se ao espelho da água e assustou-se com o horrível aspecto da sua sujeira. Lavou-se então e foi clareando até ficar como era – linda e branca como a lua. Logo depois teve de vestir novamente a horrenda pele de asno para voltar para casa.

No dia seguinte não havia trabalho por ser dia de festa e então a princesa, por meio dum toque da varinha, fez surgirem os seus pertences de toalete e divertiu-se em pentear-se e enfeitar-se com os seus mais belos atavios . Seu quartinho era tão pequeno que a cauda dos vestidos não podia desdobrar-se. Com justa razão a princesa admirou a própria beleza e teve assim um dia feliz. Resolveu depois disso que todas horas de folga seriam empregadas em vestir seus lindo vestidos e enfeitar-se – mas sempre às ocultas do mundo, dentro das quatro paredes daquele quartinho. Ficava às vezes tão maravilhosamente linda que até suspirava por não haver ali ninguém que a visse.

Num desses dias de folga em que Pele de Asno tinha vestido o seu vestido cor do sol, aconteceu deter-se ali o filho do rei, que saíra à caça. Era um formoso príncipe, ídolo do povo e queridíssimo de seus pais. A chacareira mostrou-lhe tudo, as aves que criava, as plantações que fazia, e como o príncipe fosse muito curioso, percorreu todas as dependências, tudo examinando. Ao passar por certo corredor encontrou uma porta fechada e teve a curiosidade de espiar pelo buraco da fechadura – e viu lá dentro uma visão de beleza que o deixou deslumbrado. Era Pele de Asno no seu vestido cor do sol.

Preocupadíssimo, o príncipe retirou-se dali e foi indagar quem morava naquele cômodo escuro. Responderam-lhe ser uma pastora imunda de nome Pele de Asno, assim chamada em virtude de uma pele de asno que lhe servia de vestido; disseram ainda que era uma criatura tão suja que ninguém tinha ânimo de aproximar-se dela ou com ela falar; apenas por caridade a haviam tomado para pastora de ovelhas e de gansos.

O príncipe compreendeu logo a inutilidade de questionar aquela gente estúpida e voltou para a corte de coração transtornado. Não lhe saía da imaginação a maravilhosa divindade vislumbrada por uns instantes pelo buraco da fechadura. Chegou até a arrepender-se de não haver arrombado a porta. E tal foi a sua excitação que caiu com febre cerebral, ficando malíssimo. A rainha mostrou-se desesperada com o estado daquele seu filho único e prometeu mil recompensas a quem pudesse curá-lo.

Acudiram os melhores médicos do reino e depois de muito exame verificaram que o mal do príncipe provinha duma intensa preocupação moral. A rainha foi avisada disso e indo ter com o filho pediu-lhe que confessasse lealmente o que tinha no coração. Declarou que, fosse o que fosse, tudo ela faria pro amor dele; que se era a coroa o que ele desejava, seu pai certo que a cederia sem o menor pesar; que se desejava como esposa alguma princesa, que a teria, ainda que para isso fosse necessário declarar uma guerra; mas que pelo amor de Deus tudo lhe confessasse, pois do contraria ela morreria também.

- Minha mãe, respondeu o príncipe com voz moribunda; não sou nenhum filho desnaturado que queira pôr na cabeça a coroa ainda em vida de seu pai. Ao contrário; meus votos são para que ele viva longos anos. Minha mãe bem sabe que não há filho mais obediente e meigo do que eu.

- Sim, meu filho, mas tua vida nos é por demais preciosa e queremos saber o que te preocupa, que tudo faremos para te salvar a vida – e salvando tua vida salvaremos também as nossas.

- Pois bem, minha mãe; direi a verdade. O que quero é isto só – que Pele de Asno me faça um bolo para matar meu desejo.

A rainha ficou atônita de ouvi aquele estranho pedido, com menção duma criatura desconhecida e de nome tão feio.

- Quem é Pele de Asno, meu filho?

Um dos homens do palácio, que estivera já na chácara, respondeu:

- Senhora, Pele de Asno é uma pastora imunda, de pele encardida de sujeira, que guarda carneiros e gansos numa das chácaras de propriedade real.

- Não importa, disse a rainha. Meu filho numa de suas caçadas comeu talvez algum bolo preparado por essa criatura e agora está com essa fantasia de doente. Mandem que Pele de Asno lhe prepare sem demora um desses bolos.

Emissários partiram a galope para a chácara em procura de Pele de Asno, a fim de encomendar o bolo desejado.

É preciso que se diga: no momento em que o príncipe espiou pelo buraco da fechadura , no dia da sua visita à chácara, a princesa havia percebido a manobra, e depois, chegando à janelinha, pôde vê-lo quando já se afastava dali – e muito admirou o garbo e a beleza varonil do príncipe. Dizem até que suspirou – e que depois disso suspirava sempre que se recordava daquele momento. Seja como for, quando Pele de Asno recebeu a encomenda do bolo ficou agitada de pressentimentos e correu pressurosa a fechar-se em seu quartinho a fim de pôr mãos à tarefa. Para isso lavou-se, penteou-se, vestiu o mais belo vestido e entrou a amassar a mais alva e pura farinha com a manteiga e os ovos mais frescos. Em certo momento, não se sabe se de propósito ou por acaso, deixou cair um anel que trazia no dedo. Depois de pronto o bolo, ocultou-se de novo sob a horrível pele e abriu a porta para entregar a encomenda aos emissários, aos quais timidamente perguntou como estava passando o príncipe. Os orgulhosos emissários nem deram resposta; tomaram o bolo e partiram a galope para o palácio.

O príncipe recebeu o bolo com avidez e o comeu com tal vivacidade que os médicos presentes ficaram mal impressionados, não achando aquilo natural. Logo depois começou a tossir com desespero, como se alguma coisa o estivesse asfixiando. Era o anel. Tirou-o da boca e viu tratar-se de uma jóia de rara beleza, que só poderia servir num dedinho extremamente delicado.

O príncipe beijou-o mil vezes e colocou-o à sua cabeceira, para de novo mirá-lo e beijá-lo sempre que estivesse só. Atormentava-o agora o desejo de conhecer a dona do anel, mas tinha receio de contar o que havia visto pelo buraco da fechadura certo de que todos motejariam dele. E torturado de muitos sentimentos contraditórios acabou piorando; sua febre subiu. Os médicos então disseram à rainha que a doença do príncipe era amor recolhido.

Imediatamente a rainha e o rei dirigiram-se para o quarto do querido doente.

- Meu filho! Disseram eles. Sê bondoso para com teus pais e dize o nome daquela que te conquistou o coração, pois juramos aceitar a tua escolha, ainda que recaia na mais humilde serva.

O príncipe, enternecido com aquelas palavras, respondeu:

- Meu pai e minha mãe, eu não quero contrair uma aliança que vos desagrade, e para demonstrar o que digo declaro que esposarei a dona deste anel. Creio que a dona dum dedinho que nele caiba não pode ser nenhuma rústica indigna de nós.
O rei e a rainha tomaram o anel, examinaram-no atentamente e foram da mesma opinião, isto é, que a dona daquela jóia não podia ser uma qualquer. Em seguida o rei abraçou o filho e retirou-se, e mandou que se fizesse uma proclamação anunciando que a moça em cujo dedo coubesse o anel seria a esposa do herdeiro do trono. Houve então uma verdadeira romaria ao palácio, de moças casadouras. Vieram em primeiro lugar várias princesas; depois vieram as duquesas, as marquesas e as baronesas – mas nenhuma conseguiu ajustar o anel a nenhum dos seus dedos. Depois vieram as mais lindas moças da cidade, não pertencentes à nobreza – e nenhuma apresentou dedo em que se ajustasse o anel. O príncipe já estava melhor e fazia ele mesmo a prova.

Vieram finalmente inúmeras moças de baixa condição, criadas e camareiras, e com todas sucedeu o mesmo. O príncipe mandou que viessem também as cozinheiras e guardadoras de gado – e nada, nada.

- Só falta vir essa Pele de Asno que me preparou o bolo, advertiu o príncipe, e todos riram-se, dizendo que uma tal sujeira de criatura nem merecia pôr o pé no palácio.

- Quero que a tragam, declarou o príncipe; não há razão para que venham todas menos ela.

Os cortesãos obedeceram e foram buscá-la, mas rindo-se da excentricidade do príncipe.

Pele de Asno, que já amava o príncipe, sentiu o coração bater quando soube da barulheira que ia pela corte por causa do seu anel e, desconfiada de que também viriam buscá-la, preparou-se da melhor maneira e vestiu o seu mais lindo vestido. Depois recobriu-se com a pele de asno e ficou à espera. Nisto chegaram os mensageiros com o recado chamando-a – e esses mensageiros riram-se a morrer daquele horror de criatura. “Do palácio te chamam, ó sujeira! para casar com o filho do rei, ah! ah! ah!”

O príncipe desapontou quando Pele de Asno foi introduzida em seu quarto.

- É você mesma a criatura que mora naquele quartinho dos fundos da chácara dos gansos?

- Sim, senhor príncipe, respondeu ela.

- Mostre-me sua mão, disse o príncipe, apenas por desencargo de consciência e suspirando, desanimado.

O que aconteceu então foi um assombro para todos. Ao receber a ordem de mostrar a mão, Pele de Asno espichou de dentro da horrível pele de asno uma delicada mãozinha rosada em cujo dedo médio o anel entrou como uma luva. Nisto a pele de asno caiu dos seus ombros e aos olhos de todos surgiu uma criatura de beleza arrebatadora. O príncipe lançou-se fora da cama e, ajoelhado aos seus pés, abraçou-a com ternura infinita; a seguir o rei e a rainha fizeram o mesmo, perguntando-lhe se queria receber o príncipe como esposo. A princesa, cheia de confusão, ia abrindo a boca para responder, quando o teto se fendeu e a Fada Lilás surgiu num carro maravilhoso, tecido de pétalas de lilases, e contou aos presentes toda a história da princesa.

A alegria dos soberanos foi imensa ao saberem que Pele de Asno era uma princesa de sangue real e portanto digna de ser a esposa do herdeiro do trono – e mais uma vez a abraçaram e beijaram.

O casamento realizou-se pouco depois com grandes festas e o velho rei aproveitou a oportunidade para entregar o trono ao seu amado filho. O príncipe não queria, mas o rei o forçou a esse passo – e para comemorar tão grande acontecimento foram decretados três meses de festas contínuas que ficaram célebres nos anais daquele reino.