
Há alguns anos atrás li um artigo no COMUNICANDIDO, jornalzinho da Universidade Cândido Mendes, no qual o autor se referia às cantigas de roda como causadoras da baixa auto-estima, da falta de progresso e da falta de cultura do povo brasileiro.Me chamou a atenção, não só a quantidade de asneiras sem fundamento que a tal criatura escreveu, mas o fato de que o “ artigo” não continha a sua assinatura ou identificação de quem o fez.Assunto de muitas teses e/ou teorias, Cantigas de Roda e Contos Populares já foram discutidos em seus aspectos terapêuticos.Bom seria lembrar, que através deles, nossos fantasmas são exorcizados, padrões éticos e morais estabelecidos e medos e angústias exteriorizados.Através dos contos e cantigas um povo dá vida às suas dificuldades e, bem me lembro, fui criada cantando "atirei o pau no gato" e nem por isso me tornei uma "fria, psicótica e calculista assassina de animais". Ao contrário, nossa família gerou uma veterinária que adorava "atirar o pau no gato"!!!Minha geração foi criada com sacis, cucas, mulas-sem-cabeça, samba-lelês, e Donas Chicas, e posso considerá-la (a minha geração), uma geração criativa e com princípios.Através das cantigas e contos, a criança aprende valores, aprende a não temer a causalidade, porque ela também aprende que pode vencer as dificuldades.A atual geração, do "politicamente correta" ateia fogo em mendigos, anda com cachorros de briga atiçando-os contra seu vizinho, não respeita os limites alheios e nem possui regras básicas de convivência.Minha geração aprendeu que a "Linda Rosa Juvenil", maltratada pela madrasta, isolada do mundo, conhecia o direito da libertação e possuia uma fé indelével de um dia poder sair de sua clausura. Não guardamos traumas ou rancores, ao contrário, minha geração é a geração das mães solitárias, que criaram seus filhos com garra, encontrando tempo para amá-los e torná-los cidadãos saudáveis.Mas, aí, veio alguém, possuidor da verdade, dizendo que era "politicamente incorreto" atirar o pau no gato, que estaríamos estimulando a violência contra os animais, e então as crianças perderam o direito de trabalhar sua agressividade através das músicas e passou a utilizar sua violência contra o outro!Os japoneses, nos anos 60/70, criaram uma série de filmes sobre monstros e super-heróis; quem não se lembra do Nacional Kid, o bisavô dos Power Rangers? Através deles os japoneses puderam trabalhar o medos das mutações genéticas causadas pelo efeito das bombas atômicas lançadas pelos americanos na Segunda Guerra Mundial.Não conheço a cultura americana, mas conheço seus personagens: Capitão América, o mito do herói, homem comum, do exército, capaz de "salvar" a humanidade de todos os inimigos, todos estrangeiros: alemães, russos, japoneses; na cultura americana, seu povo é heróico, os inimigos são aqueles que estão fora de seu território. Isso é apenas o reflexo daqueles que jogam sua sujeira debaixo do tapete. Por isso ele acreditam piamente que podem salvar o mundo do próprio mundo.Lamentável.Lamentável é achar que Curupira baixa nossa auto-estima. Curupira é nosso herói da floresta, é o personagem que amedronta caçadores para proteger a fauna amazônica.Lamentável é acreditar que o boi da cara preta é responsável por nossos corruptos. É uma das estórias mais lindas de nosso folclore, tão rico que superou os limites da floresta e milhares de pessoas procuram sua festa em Parintins.Lamentável é crer que o responsável por todos nossos males sociais encontra-se nas cantigas populares que divertiram e criaram muitas crianças que nunca conheceram (e ainda nem conhecem) vídeo-games, tv a cabo, cinema, dvd, internet.A criança do interior do Brasil é criada pelas cantigas e pelos contos, e são magnânimas em seu caráter e em seu amor por nosso país.E esta geração tão "politicamente correta", que não atirou o pau no gato", aprende inglês, sonha sonhos consumistas, mas não aprendeu a ler o português.Sugiro, então, ao nosso auto(a) que estude mais, leia mais em português. Leia Guimarães Rosa, leia Thiago de Melo, leia Negrinho do Pastoreio, cante a Linda Rosa Juvenil, e brinque mais, por que lhe faltou infância.A minha ainda vive, no meu trabalho, no relacionamento com meu filho, com meus pacientes e alunos.Amo meu país, apesar de tudo. Me orgulho da nossa cultura, e, como a Linda Rosa Juvenil, acredito que o mato que cresceu ao redor será cortado pelo belo Rei, que nos libertará à todos.