Roda do Conhecimento

ESPAÇO DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS, DE DIVULGAÇÃO DE OFICINAS, SEMINÁRIOS, WORKSHOPS E CURSOS DE EXTENSÃO.

Tuesday, January 23, 2007


João e Maria
Chico Buarque/ Sivuca


Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei

Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar

Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não

Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?


Monday, January 15, 2007





O MASSACRE DOS GATOS (a versão original de Chapéuzinho Vermelho)

Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.
- Para a casa de vovó - ela respondeu.
- Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
- O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.
Pam, pam.
- Entre, querida.
- Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
- Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne o vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido e, enquanto o fazia, um gatinho disse: "menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!"
Então, o lobo disse:
- Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
- Onde ponho meu avental?
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa - corpete, saia, anágua e meias a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:
- Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
- Ah, vovó! Como você é peluda!
- É para me manter mais aquecida, querida.
- Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
- É para carregar melhor a lenha, querida.
- Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
- É para me coçar melhor, querida.
Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
É para comer melhor você, querida.
E ele a devorou.

Sunday, January 14, 2007




Redescobrir
Elis Regina
Composição: Luiz Gonzaga Jr.

Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia
Como um animal que sabe da floresta, perigosa
Redescobrir o sal que está na própria pele, macia
Redescobrir o doce no lamber das línguas, macias
Redescobrir o gosto e o sabor da festa, magia
Vai o bicho homem fruto da semente, memória
Renascer da prórpria força, própria luz e fé, memória
Entender que tudo é nosso, sempre esteve em nós, história
Somos a semente, ato, mente e voz, magia
Não tenha medo, meu menino bobo, memória
Tudo principia na própria pessoa, beleza
Vai como a criança que não teme o tempo, mistério
Amor se fazer é tão prazer que é como se fosse dor, magia
Como se fora brincadeira de roda, memória
Jogo do trabalho na dança das mãos, macias
O suor dos corpos na canção da vida, história
O suor da vida no calor de irmãos, magia

Saturday, January 13, 2007



Há alguns anos atrás li um artigo no COMUNICANDIDO, jornalzinho da Universidade Cândido Mendes, no qual o autor se referia às cantigas de roda como causadoras da baixa auto-estima, da falta de progresso e da falta de cultura do povo brasileiro.Me chamou a atenção, não só a quantidade de asneiras sem fundamento que a tal criatura escreveu, mas o fato de que o “ artigo” não continha a sua assinatura ou identificação de quem o fez.Assunto de muitas teses e/ou teorias, Cantigas de Roda e Contos Populares já foram discutidos em seus aspectos terapêuticos.Bom seria lembrar, que através deles, nossos fantasmas são exorcizados, padrões éticos e morais estabelecidos e medos e angústias exteriorizados.Através dos contos e cantigas um povo dá vida às suas dificuldades e, bem me lembro, fui criada cantando "atirei o pau no gato" e nem por isso me tornei uma "fria, psicótica e calculista assassina de animais". Ao contrário, nossa família gerou uma veterinária que adorava "atirar o pau no gato"!!!Minha geração foi criada com sacis, cucas, mulas-sem-cabeça, samba-lelês, e Donas Chicas, e posso considerá-la (a minha geração), uma geração criativa e com princípios.Através das cantigas e contos, a criança aprende valores, aprende a não temer a causalidade, porque ela também aprende que pode vencer as dificuldades.A atual geração, do "politicamente correta" ateia fogo em mendigos, anda com cachorros de briga atiçando-os contra seu vizinho, não respeita os limites alheios e nem possui regras básicas de convivência.Minha geração aprendeu que a "Linda Rosa Juvenil", maltratada pela madrasta, isolada do mundo, conhecia o direito da libertação e possuia uma fé indelével de um dia poder sair de sua clausura. Não guardamos traumas ou rancores, ao contrário, minha geração é a geração das mães solitárias, que criaram seus filhos com garra, encontrando tempo para amá-los e torná-los cidadãos saudáveis.Mas, aí, veio alguém, possuidor da verdade, dizendo que era "politicamente incorreto" atirar o pau no gato, que estaríamos estimulando a violência contra os animais, e então as crianças perderam o direito de trabalhar sua agressividade através das músicas e passou a utilizar sua violência contra o outro!Os japoneses, nos anos 60/70, criaram uma série de filmes sobre monstros e super-heróis; quem não se lembra do Nacional Kid, o bisavô dos Power Rangers? Através deles os japoneses puderam trabalhar o medos das mutações genéticas causadas pelo efeito das bombas atômicas lançadas pelos americanos na Segunda Guerra Mundial.Não conheço a cultura americana, mas conheço seus personagens: Capitão América, o mito do herói, homem comum, do exército, capaz de "salvar" a humanidade de todos os inimigos, todos estrangeiros: alemães, russos, japoneses; na cultura americana, seu povo é heróico, os inimigos são aqueles que estão fora de seu território. Isso é apenas o reflexo daqueles que jogam sua sujeira debaixo do tapete. Por isso ele acreditam piamente que podem salvar o mundo do próprio mundo.Lamentável.Lamentável é achar que Curupira baixa nossa auto-estima. Curupira é nosso herói da floresta, é o personagem que amedronta caçadores para proteger a fauna amazônica.Lamentável é acreditar que o boi da cara preta é responsável por nossos corruptos. É uma das estórias mais lindas de nosso folclore, tão rico que superou os limites da floresta e milhares de pessoas procuram sua festa em Parintins.Lamentável é crer que o responsável por todos nossos males sociais encontra-se nas cantigas populares que divertiram e criaram muitas crianças que nunca conheceram (e ainda nem conhecem) vídeo-games, tv a cabo, cinema, dvd, internet.A criança do interior do Brasil é criada pelas cantigas e pelos contos, e são magnânimas em seu caráter e em seu amor por nosso país.E esta geração tão "politicamente correta", que não atirou o pau no gato", aprende inglês, sonha sonhos consumistas, mas não aprendeu a ler o português.Sugiro, então, ao nosso auto(a) que estude mais, leia mais em português. Leia Guimarães Rosa, leia Thiago de Melo, leia Negrinho do Pastoreio, cante a Linda Rosa Juvenil, e brinque mais, por que lhe faltou infância.A minha ainda vive, no meu trabalho, no relacionamento com meu filho, com meus pacientes e alunos.Amo meu país, apesar de tudo. Me orgulho da nossa cultura, e, como a Linda Rosa Juvenil, acredito que o mato que cresceu ao redor será cortado pelo belo Rei, que nos libertará à todos.

Friday, January 12, 2007






Sou de uma família de contadores de histórias. Meu avô materno era a nossa "Mary Poppins", chegava sempre de viagem com sua mala encantadora de onde saiam presentes e histórias de Quincas, criadas por ele.
Minha avó materna, acreana dos idos 1800, contava as lendas e histórias amazônicas, muitas de sua lembrança de mocidade e infância.
Não poderia ser diferente meu caminho, o de contar histórias........
Amo os contos de fadas, meu predileto, Peter Pan, me faz me reconhecer em Wendy, a contadora de histórias para os meninos perdidos da Terra do Nunca.
Então, esta aqui. Criado o espaço para se contar histórias e falar dos contos que conhecemos, ou melhor, que pensamos conhecer.
Fico grata à todas as versões que conhecerem dos clássicos...........menos às de Disney!