Roda do Conhecimento

ESPAÇO DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS, DE DIVULGAÇÃO DE OFICINAS, SEMINÁRIOS, WORKSHOPS E CURSOS DE EXTENSÃO.

Sunday, November 16, 2008


SOPA DE PEDRA

Um dia, Pedro Malasartes vinha pela estrada com fome e chegou a uma casa onde morava uma velha muito pão-dura. Bateu a porta e foi logo falando:

- Sou um pobre viajante faminto e cansado. Venho andando de muito longe, há três anos, três meses, três semanas, três dias, três noites, três horas...

- Pare logo com isso e diga rápido o que você quer – interrompeu a mulher.
- É que estou com muita fome, será que a senhora pode me ajudar?

A velha foi logo, logo dizendo:

- Não tem nada de comer nesta casa, vá embora...

Malasartes muito esperto que sói ele, olhou em volta, viu um curral cheio de vacas, um galinheiro cheio de galinhas, umas gaiolas cheias de coelhos, um chiqueiro cheio de porcos. E ainda mais uma horta muito bem cuidada, um pomar com árvores carregadinhas de frutas, um milharal viçoso e uma roça de mandioca.
- Não, desculpe a senhora entendeu mal. Eu não preciso de comida, não. Só queria era uma panela emprestada e um pouco d’água. Se a senhora me deixar usar seu fogão, eu já estou satisfeito. Porque aqui no chão tem muita pedra, e isso me basta. Eu faço uma sopa de pedra maravilhosa e nunca preciso de mais nada, já fico de barriga bem cheia.

Desse jeito, ela não tinha como negar a panela, um pouco de água e o seu fogão. Então deixou. Meio de má vontade, mas deixou. Só que não entendeu e repetiu:

- Sopa de pedra? Como assim?

- É minha senhora... – disse ele, se abaixando para pegar uma pedra no chão. – Com um pouco de pedra eu faço a sopa mais deliciosa do mundo. O importante é lavar bem, esfregar bem esfregadinho e deixar a pedra bem limpa antes de botar na panela.

E Malasartes então tratou de lavar bem a pedra, como disse.

Em seguida, encheu a panela com água, pôs a pedra dentro e botou tudo no fogo. Quando a água começou a ferver, ele provou e disse:

- É... até que não está ruim... Só não deve ficar boa mesmo, de verdade, porque não tem sal...

- Não seja por isso – disse a velha. – Eu tenho e lhe dou um pouquinho.

- Oh muito obrigada... , Só não deve ficar boa mesmo, de verdade, porque não tem cebola e alho...

-Não seja por isso – disse ela. – Eu lhe arrumo.

-E um temperinho verde, de horta, será que não tem? Dá gostinho super especial na sopa...

- Vá lá, não é por isso que essa sua sopa vai ficar sem gosto.

A velha então, foi pegar tudo o que Pedro Malasartes pediu e voltou depressa para o lado dele. Estava louca para aprender a fazer aquela sopa. Podia ser mesmo uma sorte receber aquele viajante em casa. Se ele lhe ensinasse a se alimentar só com uma sopa feita de pedra e água, com certeza ela ia economizar muito daí por diante.

Mas não pôde ficar muito tempo na beira do fogão, observando. Porque logo que Pedro jogou os ingredientes na panela e deu uma mexida, ele tornou a provar e fez uma cara de quem estava em dúvida.

- O que foi? – perguntou a velha...

- Não sei bem. Parece que falta alguma coisa neste caldo. Talvez um pedacinho de carne ou de lingüiça...

- Não seja por isso – respondeu ela. – Se é uma sopa tão maravilhosa e tão econômica assim, não vai ser por um pedacinho de carne que vamos perder essa maravilha.
Foi lá dentro e voltou com um pedaço de carne, outro de paio e uma lingüiça. Malasartes jogou tudo dentro da panela. Deixou cozinhar mais um pouquinho e então respirou fundo:

- Está começando a ficar cheirosa, a senhora não acha?

- É mesmo – concordou a velha, interessada.

- O problema é que vai ficar meio sem graça assim branquela, sem cor. O gosto está bom, mas fica sempre melhor quando a gente tem um pouco de colorido para enfeitar. Um pedaço de abóbora, umas folhas de couve, de repolho, uma cenourinha, uma batatinha... mas isso não é mesmo muito importante, a senhora não acha? É só aparência...

A velha, louca para aprender bem a fazer aquela sopa preciosa, foi dizendo:

- Não seja por isso. Vou ali na horta buscar.

Voltou carregada de tudo o que ele pediu e mais um nabo, dois maxixes, uma batata-doce, um chuchu, uma espiga de milho. Até uma banana-da-terra a velha trouxe... A essa altura, ela já não se limitava ficar olhando. Tratava de ajudar mesmo, para andar depressa e também para ela ter certeza de que não estava perdendo nenhuma etapa da preparação daquele prato tão maravilhoso e econômico. Por isso, foi logo lavando todas as verduras para tirar a terra e limpar bem, descascou o que era de descascar, e foi passando para Pedro, que cortava e jogava na panela, cortava e jogava na panela, cortava e jogava na panela...

E o fogo, ó, ia esquentando, esquentando, esquentando...

E a água, ó, ia fervendo, fervendo, fervendo...

E a sopa, ó, ia borbulhando, borbulhando, borbulhando...

Os dois, Pedro Malasartes e a velha esperavam sentindo aquele cheiro ótimo.

De vez em quando Malasartes provava a sopa e suspirava:

- Hum! Está ficando gostosa...

Provava a sopa e suspirava:

- Hum! Está ficando gostosa...

Provava a sopa e suspirava:

- Hum! Está ficando gostosa...

- Está mesmo um cheiro delicioso – concordava a velha.

Depois de muito tempo..., ele provou de novo e concluiu:

- Pronto! Agora está perfeita! Uma delícia! É só tomar.

A velha trouxe dois pratos fundos, e ele serviu. Ela ficou olhando, para ver o que ele fazia com a pedra, mas Pedro deixou todas as pedras no fundo da panela.

-Ué e as pedras? – perguntou a velha.

- A gente joga fora.

- Não entendi, porque...joga fora?

- É...

...Ou então lava bem e guarda para fazer outra sopa no dia em que for preciso enganar outra boba.

Uns dizem que ela ficou tão furiosa que jogou a panela em cima dele, com sopa quente, pedra e tudo.

Outros dizem que ela deu uma gargalhada, viu que tinha merecido, mas tratou de tomar a sopa e guardar a pedra.

Pode escolher o fim. E fica sendo assim.

(Conto Brasileiro por Ana Maria Machado)

0 Comments:

Post a Comment

<< Home